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Não deixe de entender: Americanas, Light e BC

Este texto é de 10 de fevereiro, portanto, 2023 ainda teve pouco mais de um mês. Nem mesmo chegamos no carnaval. Mas o ano já está agitado para o mercado financeiro no Brasil – não podemos dizer que ele só terá início depois da folia.

Duas empresas grandes chamaram atenção no noticiário devido a problemas financeiros: Americanas e Light. Além disso, o presidente Luíz Inácio Lula da Silva (PT) teve atritos com o Banco Central.

Este texto se dispõe a trazer os principais pontos de cada um dos assuntos, com o intuito de ajudar os leitores a acompanharem as questões.

Americanas

O ano de 2023 começou justamente em um domingo, oficialmente o primeiro dia de uma semana. Então, quando o calendário apontava 11 de janeiro, já se tratava da segunda quarta-feira do mês. A data poderia ser apenas uma curiosidade, mas foi quando uma notícia surpreendeu o mercado:

Sérgio Rial, presidente da Americanas, e o diretor de relações com investidores André Covre renunciaram de seus cargos – que haviam assumido pouco tempo antes. O motivo anunciado foi a descoberta de dívidas em aproximadamente R$ 20 bilhões, que não constam nas demonstrações financeiras dos fornecedores até 30 de setembro de 2022.

É natural que a notícia chame atenção imediatamente: como ninguém percebeu um rombo de R$ 20 bi? Além disso, trata-se de uma empresa tradicional – a Americanas foi fundada em 1929. Seus principais acionistas são nomes reconhecidos no Brasil: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles, e Carlos Alberto Sicupira. Sérgio Rial tem passagens por grandes empresas, como o Santander.

A história ainda não chegou a um desfecho, mas vale se atentar aos principais fatos até agora.

Em 19 de janeiro, foi aceito o pedido de recuperação judicial da Americanas. O instrumento é utilizado para evitar a falência da empresa – e trata-se do quarto maior caso no Brasil. De acordo com a companhia, todas as suas dívidas somam R$ 43 bilhões e envolvem 16 mil credores.

O que acontece depois do pedido de recuperação judicial?

O que acontece depois do pedido de recuperação judicial da Americanas?

Vale destacar dois aspectos. Primeiro, durante 180 dias as dívidas e obrigações da empresa ficam suspensas – período conhecido como “prazo de blindagem”.

Além disso, a companhia tem 60 dias para apresentar pelo menos a primeira versão de um plano de reestruturação. O documento deve explicar todas as medidas que devem ser tomadas para rebalancear seu capital.

Executivos investigados

A casa de análises Levante Corp. explica que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que atua como um xerife do mercado, está investigando a responsabilidade de executivos envolvidos com o rombo.

Um dos principais motivos para o fato se deu em 2022: entre agosto e outubro, diretores venderam ações da empresa. O movimento ocorreu após uma valorização dos papéis na esteira da indicação de Sérgio Rial para ocupar a presidência. As vendas de posições dos diretores somam R$ 241 milhões.

Americanas e os bancos

A equipe da Levante também destaca que, incialmente: “Os bancos credores se mostraram dispostos a renegociar as dívidas”. Porém, o que se viu na sequência foram suspeitas de fraude e a resistência dos acionistas de referência para aportar capital suficiente para reorganizar a operação.

Com isso, as instituições financeiras passaram a ser mais firmes com a Americanas, o que tem gerado disputas judiciais.

Na última quinta-feira (9), o Valor apurou uma organização inédita no mercado brasileiro: inúmeros investidores se uniram para negociar com a Americanas. O grupo possui cerca de R$ 6 bilhões em Debentures e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) da empresa.

Outro ponto importante é a contração da consultoria Alvarez & Marsal, que junta forças com a Rothschild & Co para auxiliar a Americanas na renegociação das dívidas.

O movimento é visto com bons olhos pelos especialistas da Levante: “Entendemos que a sua atuação no processo será de grande valor para a Americanas, dada a experiência que possui na gestão de empresas com graves problemas financeiros. A A&M, que tem sede nos Estados Unidos, foi administradora da recuperação judicial da Odebrecht e da varejista carioca Casa & Vídeo”.

E os investidores?

Este é um momento em que vale destacar a importância do cuidado na hora de montar a carteira, o que sempre pode ser feito junto a um assessor de investimentos.

“Fatos como este, que acontecem no mercado raramente, nos trazem lições importantes pela ótica da alocação de capital. A diversificação é essencial para mitigar tanto os riscos que podemos precificar, quanto os ocultos”, pontua Eduardo Rahal, analista da Levante Corp, em relatório.

Light

A Light S.A. é uma holding do setor de energia elétrica no Brasil. Sua atuação se dá na geração, distribuição, comercialização e soluções de energia. A empresa está presente em 31 municípios do Rio de Janeiro, além de possuir participação em usinas hidroelétricas de outros estados.

O alerta sobre a companhia surgiu no dia 30 de janeiro. Na data, foi noticiado que a Light havia recorrido a Laplace Finanças para realizar uma reestruturação financeira. Desde 2020, 10% da empresa pertence a Carlos Alberto Sucupira, um dos controladores da Americanas.

Qual é o problema da Light?

Qual é o problema da Light?

De acordo com a própria companhia, no final do terceiro trimestre do ano passado, as amortizações de empréstimos, financiamentos e debêntures chegavam a R$ 3,1 bilhões entre 2023 e 2024. O caixa era de R$ 4 bilhões.

Bem, a Light poderia negociar a rolagem das suas dívidas – ou seja, postergar os prazos de pagamento. Porém, sua concessão acaba em 2026 e, por isso, é natural que os bancos não aceitem mudanças nos prazos.

É nesse ponto que entra a Laplace.

De acordo com a Light, a contratação visa, principalmente, melhorar a estrutura de capital da companhia. Vale ressaltar que a Laplace assessorou a Oi durante sua recuperação judicial.

Há ainda outro ponto de atenção: 20% da área de cobertura da Light está em regiões dominadas pelo tráfico de drogas e por milicianos. Os grupos criminosos chegam a criar formas de roubar a energia da empresa para vender aos moradores locais, conforme ressaltado por Camilla Dolle, head de Renda Fixa da XP.

Lula e o Banco Central

Também foi em janeiro que surgiram trocas de farpas entre o presidente Luíz Inácio Lula da Silva (PT) e o Banco Central.

Para entender a confusão, é importante observar primeiro quais são os aspectos envolvidos.

Inflação e taxa de juros

Um dos principais temas é o avanço generalizado dos preços, a inflação – que no Brasil é medida oficialmente pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Em resumo, a inflação brasileira disparou com os efeitos da pandemia – algo que também se deu em outros países. Por aqui, o IPCA registrou avanço de 10,06% em 2021.

Quem atua de maneira mais direta para controlar essa alta é o Banco Central (BC). O instrumento utilizado para isso é a Selic, a taxa básica de juros do país – é o que se chama de política monetária.

Em meio à inflação de dois dígitos, os juros chegaram a 13,75% ao ano. O avanço de preços começou a arrefecer: em 2022 o IPCA avançou 5,79%. Vale ressaltar que o Brasil possui uma meta de inflação, que foi de 3,5% no ano passado, podendo chegar a, no máximo, 5%. Portanto, ela foi ultrapassada.

Para este ano, a meta é de 3,25%, com tolerância até 4,75%.

Existem reformas em discussão pelo governo, como a tributária, que podem ajudar no controle da inflação.

O que aconteceu entre Lula e o BC?

O que aconteceu entre Lula e o BC?

Em diferentes ocasiões o presidente se mostrou incomodado com a taxa de juros elevada. Sua insatisfação se dá porque a Selic alta tende a causar retrações na economia para controlar o avanço dos preços.

Além dos juros altos, Lula também reclamou diretamente de Roberto Campos Neto, presidente do BC, além de descordar publicamente da meta da inflação atual.

O petista ainda questionou a autonomia do Banco Central, medida aprovada em 2021 com o intuito de reduzir a influência política na instituição. Campos Neto relativizou as falas de Lula, mas reforçou a importância de manter o BC independente.

Em meio às discussões, Alexandre Padilha (PT), ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, chegou a dar declarações públicas no sentido de acalmar os ânimos.

Outro ponto importante dos embates se deu em 1º de fevereiro, após reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. No encontro, foi decidido que a Selic seria mantida no patamar atual, o que já era esperado pelo mercado.

O Copom divulgou um comunicado logo após a reunião. O Comitê se mostrou enfático em relação a incertezas fiscais e ao aumento das expectativas de inflação. Parte das críticas de Lula se deram após esse momento.

Tradicionalmente, uma semana após as reuniões, o Copom divulga a ata do encontro. Petistas consideraram o tom mais leve do que o observado no comunicado divulgado anteriormente.

Alexandre Padilha e Gleisi Hoffmann, presidente do partido, afirmaram que houve reconhecimento dos esforços do ministério da Fazenda – pasta liderada por Fernando Haddad, também do PT. “Esperamos que esse confronto perdure ao longo do ano, trazendo volatilidade a um mercado já avesso a risco por diversos motivos. Vale reforçar, no entanto, que em momentos de volatilidade surgem boas oportunidades“, afirma Pedro Tiezzi, estrategista da SVN.

Autor

Boris Bellini
Jornalista com experiências em marketing, segurança digital, mercado editorial e financeiro. No meio acadêmico, pesquisa a credibilidade jornalística. Anteriormente foi músico, tendo atuado como violoncelista e professor.

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